Patrícios portugueses

Final de tardeNo lunch meeting de hoje, tivemos a apresentação de um colega de Portugal que está aqui para um internship de três meses. Ele mostrou a experiência dele no Vietnã, onde passou os últimos seis anos. Pesquisador do CIRAD, uma organização de pesquisa francesa, pai de três filhos e já doutor há sete anos. O cara tem 36 anos. Fico impressionado com essas coisas. Fora a animação dele para passar mais dois anos em Madagascar. Eu aqui nos Países Baixos já meio que achando que estou fazendo “muito”, vejo esses caras que vão “ali” por seis anos… Só assim a gente se dá conta que é tatu de buraco mesmo. O que mais me chamou a atenção nele foi as mudanças que ele conseguiu implantar em algumas áreas ao norte do Vietnã. Resultados concretos. Nossa, aquilo sim me encheu os olhos. Bom ver os frutos de um trabalho assim vicejando. É dar um propósito para a vida da gente. Claro que esse cara é uma exceção a muita regra. Enquanto um monte de europeu de bunda branca continua com ela branca por aqui, sentado sobre os seus papers, alguns, mas alguns mesmo, fazem a diferença. Dei me conta com esse cara do quanto sinto falta disso. Do porquê eu tinha escolhido agronomia como carreira. Ou melhor, como uma proposta de vida. Lá está o cara. Perfeitamente “mauricinho”, de mãos sem calo, mas com muito cérebro e, o mais importante, ali, perto do produtor, em um país pobre, tentando fazer algo por eles, não para ele. O “para ele” era a satisfação de estar ali ajudando, de ver outra cultura, de conhecer diferentes realidades, de lidar com pessoas e todas as suas limitações, paixões, medos e caduquices. Sei que nunca é tarde para “começar”. O que me preocupa de fato é a proposta de vida que faço hoje para mim. De melhorar a minha vida, a minha profissão, a minha produção, mas não se preocupar tanto com “os outros” desta ilha chamada Terra. Nessas horas, Lost faz muito sentido. O medo de ficar sem, de ser o último, de não ser do grupo, faz a gente agir como bicho mesmo. Competir. Assumir uma outra racionalidade, a da sobrevivência. Nessa racionalidade, não existe espaço para “o outro”. De repente, estou me vendo assim. A foto é bem eloqüente. O “fim de tarde” de nossas vidas, o “barco-eu” sozinho indo para algum lugar, reto, sem parar, sem sorver, deixando para trás um rastro igualmente fino, reflexo de sua ignorância das possibilidades do mundo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s