Pressupostos

Uma vista bucólica

Uma vista bucólica

Estava lendo um artigo na The New York Times na parte de ciências e fiquei admirado com uma descoberta de um cara da Universidade de Texas, o pesquisador Mikhail V. Matz. Ele descobriu uma “bola” multicelular que é uma gigantesca ameba, com cerca de 1 polegada de diâmetro no fundo do mar caribenho. Até aí, já vimos organismos multicelulares grandes. A questão é: o dito cujo rola pelo fundo do mar por conta própria. Nesse deslocamento, ela cria um rastro de “exudado”, como uma lesma. Esse exudado foi encontrado fossilizado há 542 milhões de anos atrás. Só que esta ameba, dentro de nossa teoria evolucionária, é de 550 milhões de anos. Ou seja, antes dos rastros fossilizados encontrados. Com isso, levantou-se uma lebre importante. Até então, a ciência tinha como suposição o fato de que a única criatura capaz de criar um movimento de rastro como aquele deveria ser um organismo complexo, multicelular e bilateral. Esse marco de 540 milhões de anos foi usado então como o início “oficial” do surgimento dos seres bilaterais como nós, animais superiores. Com a descoberta da ameba, esse pressuposto caiu por terra. Os rastros podem ter sido feitos por seres multicelulares, mas não necessariamente bilaterais. Assim, os seres bilaterais podem ser mais recentes do que pensavam.

Este artigo me chamou a atenção porque eu fui criticado na semana passada por um professor sobre a minha abordagem de pesquisa. Ele disse que se as coisas podem ser explicadas de forma simples, que não devemos complexificar as coisas. Citou a “Lâmina de Occam” (Occam’s Razor). Traduzindo para a nossa “ciência” potiguar: K.I.S.S. – Keep It Super-Simple. Porém, lendo um texto no Wikipedia sobre isso, o autor comenta que é um erro comum associar a tal “lâmina” com simplificar. William of Ockham não teria discutido sobre complexidade, mas sobre não envolver elementos que não fazem parte do objeto discutido. Algo como, se vamos ensinar alguém como cozinhar arroz, não tem o porquê se ensinar o seu plantio. Mas você pode ensinar sobre os diferentes tipos de panelas, os efeitos da temperatura de cocção, a qualidade da água de fervura, a adição de temperos e assim por diante. Ou seja, você pode complexificar o assunto “cozinhar arroz” se for necessário para melhor fazer o arroz. Occam não seria contra isso. O que me faz trazer esta discussão é fazer o paralelo com a ameba. O professor quis me dar uma lição sobre algo e acabou baseando o seu comentário num pressuposto aparentemente equivocado (afinal, não sei se o Wikipedia está correto) sobre Occam. Com isso, eu sinto que ele foi incapaz de compreender o meu trabalho. Está tão obcecado por simplificar que não percebe que a adição do elemento que fiz não tem a ver com complexificar as coisas, mas com a necessidade de explicar uma observação. Não quero fazer uma discussão de quem está certou ou errado. Quero mostrar que pressupostos costumam ser as maiores vendas da ciência. É quando tomamos por verdade coisas sem discuti-las. A velha história da mentira contada mil vezes que se torna verdade.

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