Vaidades

 

Depois de assistir ao filme “Rembrandt” (1936), estrelado por Charles Laughton, procurei  por uma das citações feitas no filme. Ela é do livro de Eclesiastes, capítulo 1, versículos de 1 a 18:

1 As palavras do mestre, filho de Davi, rei em Jerusalém:

2 “Que grande inutilidade!”, diz o mestre. “Que grande inutilidade! Nada faz sentido!”

3 O que o homem ganha com todo o seu trabalho em que tanto se esforça debaixo do sol?

4 Gerações vêm e gerações vão, mas a terra permanece para sempre.

5 O sol se levanta e o sol se põe e depressa volta ao lugar de onde se levanta.

6 O vento sopra para o sul e vira para o norte; dá voltas e voltas, seguindo sempre o seu curso.

7 Todos os rios vão para o mar, contudo, o mar nunca se enche; ainda que sempre corram para lá, para lá voltam a correr.

8 Todas as coisas trazem canseira. O homem não é capaz de descrevê-las; os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de ouvir.

9 O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.

10 Haverá algo de que se possa dizer: “Veja! Isto é novo!”? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época.

11 Ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles.

12 Eu, o mestre, fui rei de Israel em Jerusa­lém.

13 Dediquei-me a investigar e a usar a sabe­doria para explorar tudo o que é feito debaixo do céu. Que fardo pesado Deus pôs sobre os ho­mens!

14 Tenho visto tudo o que é feito debaixo do sol; tudo é inútil, é correr atrás do vento!

15 O que é torto não pode ser endireitado; o que está faltando não pode ser contado.

16 Fiquei pensando: Eu me tornei famoso e ultrapassei em sabedoria todos os que governaram Jerusalém antes de mim; de fato adquiri muita sabedoria e conhecimento.

17 Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento.

18 Pois quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto.

Melhora, Brasil!!

O nosso país é pobre. Sim, somos pobres e ninguém se engane. Explico porque. Temos uma grande parcela da população que não tem acesso a coisas básicas como BOA alimentação, PREVENÇÃO de doenças, escolas que estimulam CIDADÃOS e o direito de ir e vir sem sofrer violência. Por boa alimentação, não falo só em matar a fome. Ovo frito em gordura trans, frango com antibiótico e pele assado, arroz polido, feijão com pau e pedra, alface regado com sei lá qual água e tomate com sete combates de inseticida, não são exatamente exemplos de boa nutrição. E comer bem é o começo para se ter uma saúde legal, com menos problemas. Assim como não jogar lixo em qualquer lugar, não acumular água nos vasos de planta, fazer exercícios, ter um lazer, curtir a família com tempo e presença e um monte de outras coisas que ajudam a nos manter bem. Tudo é prevenção. E prevenir é mais barato que remediar, pelo menos para quem quer ter saúde. Para aprender a prevenir, a saber o que comer, a ter valores para curtir a família e os amigos, a entender a importância do exercício e do lazer em nossas vidas, é preciso estudar, é preciso ser cidadão. E não esse estudo técnico, que visa o mercado de trabalho de funções em uma empresa. Mercado esse que também não ajuda muito. Ficamos nessa coisa de loja “popular”. Marcas vendendo produtos porcaria, de qualidade e duração duvidosas. Tudo para vender, para ganhar na quantidade, na “baciada”. Porque o consumidor não tem muita grana, então é preciso fazer um produto “adequado às necessidades do consumidor”. Vender mais, para produzir mais, para gerar mais empregos (de baixos salários), para ter mais gente comendo ovo frito, pagando planos de saúdes sacanas, escolas particulares de qualidade ruim (e caras) e virar mais mão de obra barata.

Não gosto desses rótulos de socialista e capitalista. Não gosto porque não dizem nada. Acabam inventando coisas do tipo “socialismo cubano” ou “capitalismo liberal” exatamente para fugir das denominações sintéticas de socialismo e capitalismo. Fato é que eu sei que exploro os outros. Exploro quem me vende pamonha a dois reais, quando na verdade o tempo e energia que se empregou custava mais. Exploro a faxineira para quem pago salário mínimo enquanto me deixa trabalhar (e ser explorado!) para ganhar mais. E assim vai nessa cadeia imensa de exploração. Existe justiça na exploração? Francamente, se nem os economistas sabem, quem sou eu para saber. E acho que não sabem (ou não entram num consenso) porque é uma questão de valores morais e éticos. A questão já impões isso na medida que fala em “justiça”, em julgar.

O capitalismo tal qual (mercados de troca) não é perfeito, mas é o que na prática “funciona” (mal). Se eu descobrisse outro jeito, eu ia ganhar o prêmio Nobel, com certeza! Mas podemos sim fazer alguma coisa enquanto não descobrimos algo melhor. Penso que nesse processo de busca de algo melhor, acaba-se por construir algo melhor. E nada como começar sendo honesto e trabalhador a despeito de tanta sacanagem e gente não honesta que possa existir. É não se sentir toda hora lesado por alguém, mas pensar que o mundo é MUITO grande, que a vida é MUITO grande. Não sei se o mundo algum dia foi ou será do jeito que eu gostaria que fosse. Mas eu trabalho e me devoto a esse mundo. Um mundo que eu não preciso de cartórios para confirmarem o que eu disse, que não precise de dinheiro para trocar por coisas, onde as pessoas confiam na palavra uma das outras, que se ajudam, que pensam no outro e não somente em si. Um mundo em que as pessoas fazem aquilo que gostam, que têm espaço para descobrirem do que gostam e aprenderem sobre isso. Um mundo que as pessoas são humildes para aprender, humildes para ensinar, que compartilham e acreditam no outro. Um mundo onde o bem está subjacente a todo ato e pensamento.

Eu sei, uma utopia. Como tantas outras… “Imagine all the people…”, já falava a música. Mas sabe o que é, não é só prestar atenção na letra da música, mas ser coerente entre o que se pensa e o que se faz, pelo menos com as pessoas que a gente acha que merecem e que valham à pena.